O cinema pernambucano, historicamente marcado pela invenção estética e pela inquietação política, dá agora um passo ousado rumo ao futuro. O curta-metragem “À moda antiga”, dirigido por André Pinto, desponta como uma das primeiras produções do Estado a incorporar de forma estruturada a inteligência artificial (IA) na construção de cenas, ambientações e soluções visuais, tudo isso sem abrir mão do fazer cinematográfico tradicional. Em fase de pós-produção, o filme estará finalizado no segundo semestre deste ano.
Mais do que um experimento tecnológico, o filme nasce de uma provocação filosófica: o que resta da humanidade quando ela já não existe mais? A narrativa articula questões contemporâneas, como o avanço tecnológico, a solidão, a memória e as mudanças climáticas, para imaginar um Recife devastado por uma inundação catastrófica, onde apenas os prédios mais altos resistem. A capital pernambucana não é mero cenário, ela se torna personagem e metáfora.
“O Recife sempre viveu esse fantasma da água. A cidade é litorânea, sofre com alagamentos, carrega traumas históricos. ‘À moda antiga’ concretiza esse medo e transforma em algo real, que acaba destruindo quase tudo”, diz André.

Se o enredo debate o futuro da arte diante da tecnologia, o próprio processo criativo do curta incorpora essa tensão. André Pinto já vinha experimentando ferramentas de IA desde 2021, tanto no design gráfico quanto no audiovisual. A ideia de criar um projeto que explorasse narrativas nesse ambiente surgiu como forma de viabilizar histórias que, de outro modo, permaneceriam no papel. “Dentro das minhas próprias experiências e dilemas com essa ferramenta surgiu a temática do filme. Como a gente fazia arte no passado? Como vai fazer no futuro? O elemento humano vai estar sempre presente?”, pontua.
Apesar do uso intenso da tecnologia, o roteiro foi escrito integralmente por humanos. “A gente sequer colocou em um chat para saber que caminho tomar. Foi 100% feito por seres humanos”, destaca o diretor.
A IA entrou desde a concepção visual até a pós-produção, mas sempre em diálogo com métodos tradicionais. O grupo criativo envolvido, reunido no coletivo Lúmini Mágica, manteve o processo clássico de filmagem, com set físico, troca de lentes, captação de som direto, maquiagem, figurino, direção de fotografia.

Em vez de delegar a criação à máquina, a equipe forneceu referências detalhadas: esboços de figurino, paletas de cores, storyboards, texturas e imagens captadas. O resultado será uma mescla com imagens reais captadas em Recife combinadas com intervenções digitais que ampliam cenários, recriam prédios arrasados e constroem ambientes futuristas de aparência épica.
Em meio à explosão de conteúdos gerados por inteligência artificial na internet, “À moda antiga” pretende provocar reflexão, não apenas fascínio visual. Para André, o momento é de democratização, mas também de responsabilidade.
“No meio desse turbilhão de conteúdos de IA jogados diariamente na internet, lançar esse curta é colocar um objeto que pode gerar discussão. Mas não é sobre substituir. É sobre somar. ‘À moda antiga’ não abandona o método tradicional. Ele busca equilíbrio”, explica o diretor.
EQUIPE
A equipe técnica de À moda antiga reúne profissionais de diferentes áreas do audiovisual pernambucano, combinando experiência em cinema, fotografia e artes visuais com experimentação tecnológica. A direção e os efeitos visuais são assinados por André Pinto, que também divide o roteiro com Édnei Pedroso, Luciano Bresdem, Luiz Rodrigues e Marcello Trigo. A direção de fotografia é de Vinícius Lubambo, responsável por construir a atmosfera visual do filme, que dialoga com o contraste entre o Recife real e o cenário pós-apocalíptico imaginado pela narrativa.
O elenco é formado por André George, Fernanda Spíndola, Thomas Evertton, Jully e Rayo Vasconcelos. A equipe conta ainda com Igor Bruno na assistência de câmera, fotografia e som direto, enquanto a assistência de produção é de Ana Fernandes e Alberto Penaforte. A caracterização dos personagens fica a cargo de Lucas Saillon, responsável por maquiagem e figurino. A montagem, correção de cor e finalização são assinadas por André Farkatt, consolidando o diálogo entre imagens captadas em locação e intervenções digitais que ampliam os cenários da história. A produção é da Canto de Olho Filmes, com coprodução da Armada Filmes, Atuar Produções Artísticas, Farkatt Produções, Kalulu Comunicação e Vinícius Lubambo Imagem.





