Mais do que uma marca da liberdade criativa do grupo, Ave Sangria (1974) carrega agora o peso simbólico do pioneiro reconhecimento da perseguição sofrida durante a Ditadura Militar, reafirmando sua importância como um documento de resistência artística. Banido das lojas e proibido de tocar nas rádios de todo o país poucos meses após o seu lançamento, o álbum homônimo da Ave Sangria representou, por decisão do Estado brasileiro, o primeiro e último voo da formação original do grupo na década de 70. A censura da época viu na faixa “Seu Valdir” uma “apologia ao homossexualismo” (sic), o que resultou no esvaziamento da agenda de shows e na asfixia da carreira da banda.
Essa injustiça histórica começou a ser oficialmente desfeita em abril de 2026. Exatos 52 anos após o lançamento, o governo brasileiro reconheceu a perseguição política e a censura imposta ao grupo. Em uma cerimônia oficial, o Estado, através do Ministério dos Direitos Humanos e da Presidência da República, pediu desculpas aos membros da banda, garantindo-lhes anistia, reparação oficial, além de indenização e pensão vitalícia. Embora a reparação tenha vindo décadas depois, ela coroa a trajetória de um grupo que nunca deixou de ser cultuado.
Nascida no bairro da Tamarineira, zona norte do Recife — local irônico e jocosamente associado à “loucura” por ter abrigado um hospital psiquiátrico —, a banda surgiu da união entre as composições de Marco Polo Guimarães e Almir de Oliveira. Inicialmente chamados de Tamarineira Village, mudaram o nome para Ave Sangria por sugestão de uma cigana na Paraíba: “Ave” pela liberdade poética e “Sangria” pela força sanguínea do Nordeste.

A estética teatral e subversiva do grupo, que flertava com a androginia em pleno regime militar, colocou-os no epicentro do udigrudi, o movimento underground recifense. Ao lado de nomes como Alceu Valença, Lula Côrtes e Zé Ramalho, a Ave Sangria fundiu o rock progressivo e a psicodelia aos ritmos regionais, criando uma identidade sonora única que influenciou gerações.
Hoje, o álbum é celebrado como um dos mais importantes do rock brasileiro, item clássico e raro nas coleções de discos de vinil. Se a ditadura tentou apagar sua existência, a internet se encarregou de espalhá-lo. A obra dos “hippies subversivos” atravessou décadas, conquistando jovens que enxergaram naquelas 12 faixas uma mistura perfeita de influências que vão de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro a Beatles e Jimi Hendrix. A capa, que exibe um “papagaio drag queen”, tornou-se um símbolo visual da ousadia pernambucana.
Prensado em vinil preto de 180g, o álbum apresenta-se em uma luxuosa capa dupla (gatefold) que restaura o impacto visual da arte original, acompanhado de pôster exclusivo e obi. Complementando a experiência, um encarte especial traz textos que costuram a trajetória da banda, transformando o disco em um documento definitivo de justiça e resistência psicodélica brasileira.
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